Conchita Wurst, vencedora da edição do Festival da Canção da Eurovisão (FCE) de 2014 veio agitar as águas fétidas da maledicência. Sabem porquê?
Basta olhar para a cara da Conchita para saber resposta. Taxada de "mulher-barbuda", a personagem de Tom Neuwirth veio confundir as imagens estagnadas que muita gente tem na cabeça sobre estereótipos.
De tal modo que não gostaram dela que os russos pediram uma outra edição do FCE pois acham que ela não representa a sua visão. Vários políticos russos aproveitaram para libertar a sua hostilidade contra os homossexuais, dizendo coisas como "nossa indignação é ilimitada, isto é o fim de uma Europa que ficou completamente louca" ou que o exército russo nunca deveria ter deixado a Áustria.
Pelas redes sociais, sítio onde cada qual dá o seu comentário sobre tudo e sobre todos (o cabrito maltês também), não se notou uma compreensão melhor do assunto.
Afinal, Conchita é o quê?
Não gosto muito dos rótulos (a vida é mais do que um adjectivo) mas acho que podemos descrever Conchita Wurst como a personagem de Tom Neuwirth. Assim, como não existe a anulação da identidade do seu criador nem a identificação com o sexo oposto, Tom é transformista.
O porquê do ódio?
Há vários motivos que levam a um comportamento hostil perante algo ou alguém. O mais comum é quando nos sentimos ameaçados na nossa integridade mas olhando para a Conchita, não acreditamos que ela vá desferir golpe de Karaté contra alguém.
Então, o ódio pode ser por:
1) Representação ou projecção daquilo que gostaríamos de fazer, ser ou ter. Aqui se incluem pessoas mal resolvidas com a sua sexualidade, identificação de género ou socialmente reprimidas no passado que levam a perpetuar o comportamento. Inveja se transforma em ódio
2) Incapacidade de compreender. A frustração por não entender o que vemos não é assumida como de nossa responsabilidade e hostilizamos o sujeito como forma do eliminar. Como não podemos matar ou agredir fisicamente, o comportamento é transformado em discursos de ódio. Ignorância se transforma em ódio.
3) Integração social. Pode parecer estranho o conceito mas os nossos comportamentos são condicionados pelo meio onde vivemos. Se uma sociedade, em geral, maltrata um determinado grupo, então, de forma a se sentir incluído na sociedade, o indivíduo imita o comportamento. O exemplo mais comum é encontrado em seguidores de religiões fundamentalistas ou filhos que imitam a ideologia dos seus pais. Anulação da individualidade se transforma em ódio.
4) Alucinação. Um grupo (ou indivíduo) acredita numa ameaça que não existe e reage de forma violenta. A realidade deste indivíduo é pautada normalmente por teorias de conspiração, perseguição, temor e ignorância. Os seus discursos para justificar o comportamento são, usando um eufemismo, pobres na sua construção e raramente têm algum fundamento. Delírio se transforma em ódio.
Honestamente, não há razão alguma para odiar Conchita e ela foi uma merecida vencedora. Uma competição leal deu-lhe a vitória. Se você não gosta da Conchita, até aí tudo bem. Não podemos gostar de todos nem todos de nós mas faça um favor. Não nutra ódio por ninguém.
O Cabrito Maltês é um blog de opinião. Se você não gostou do que leu fique sabendo que também não o escrevemos para o agradar mas sim dar-lhe a conhecer um ponto de vista sobre o assunto. Abstenha-se de comentários insultuosos, de incitamento à violência, de pregação religiosa ou discriminatórios. Se encontrar algo assim o seu comentário será ruminado.

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