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terça-feira, 9 de setembro de 2014

7 frases célebres sobre eleições – e meu comentário sobre elas



De 2 em 2 anos o brasileiro entra nesse processo de desgaste psicológico chamado “eleição” –  também conhecido por seu plural, “eleições”, sob mesmo significado. A cada quatro anos, porém, o desgaste é ainda maior, pois ele/eu/você/nós é/somos obrigados a votar para cinco cargos diferentes (isso quando ainda não tem que votar para dois senadores, totalizando seis escolhas!). Num país onde o cara precisa ter TV a cabo pra poder se livrar de 50 minutos de trocas de ataques pessoais, promessas faraônicas e engraçadinhos que parecem ter fugido do Zorra Total, era bem de se imaginar que algumas ideias muito obtusas fossem consagradas com o passar dos anos. E agora vou fazer um breve comentário sobre algumas delas:



Frase 1: “Voto nulo é antidemocrático”.



Imagine que você é católico (e talvez até seja) e foi confessar alguma coisa com o padre, no confessionário. Ele disse algumas coisas mais ou menos ponderadas e te passou umas orações como penitência. Sabe-se lá por que motivo, você decide contar a mesma coisa que disse ao padre para um amigo, e esse acaba por te condenar de forma muito mais veemente que o próprio padre.



É mais ou menos isso que acontece em relação ao tal do voto nulo. Ainda há, em pleno ano de 2014, quem faça pressão psicológica com os outros, dizendo que o ato de anular seu voto é uma indignidade, quando, afinal, seu voto, nulo ou não, é acima de tudo secreto, e você pode tanto não revelá-lo como até mesmo mentir em quem votou – não estou dizendo que mentir em quem votou é bonito, mas é seu direito. Seu voto, afinal, não é da conta de ninguém!



Mas o voto nulo ainda se torna um fator necessário se considerarmos o país em que vivemos. Quando a república foi proclamada, ainda no século XIX, você precisava pagar para votar – era o capital quem mandava. Hoje, você precisa pagar para não votar – é o capital quem segue mandando. A obrigatoriedade do voto é aquilo que faz nosso sistema eleitoral quase se igualar ao do fim do século XIX. Portanto, se a pessoa não está com vontade de votar – e não fazer o que não tem vontade é um Direito Humano – e também não está afim de pagar uma taxa a um sistema eleitoral canalha para justificar seu não-voto, nada mais válido que anulá-lo. O direito ao voto nulo é uma das poucas coisas de nosso sistema eleitoral esquizofrênico que ainda se dispõe a respeitar a vontade do cidadão comum.



Frase 2: “...mas como você vai cobrar do cara se você não votou?”



Essa frase clássica vem, geralmente, seguida da primeira. A pessoa defende que você TEM, a qualquer custo, que escolher alguém, e que você não terá direito a se manifestar em relação aos atos do político eleito caso não vote.



Grande engano. Todo e qualquer cidadão tem direito a cobrar atitudes dos políticos eleitos, ainda que não tenham sido eleitos com seu voto. Mesmo um jovem de 12 ou 14 anos, que não vota, se já for consciente de sua cidadania, tem sim direito de apoiar, desapoiar ou pressionar alguém que ocupe um cargo político. Afinal de contas, o político é um funcionário público.



Você tem direito a se manifestar em relação a uma atendente de uma repartição pública, mesmo não a tendo ajudado a estudar para o concurso público que a pôs ali? É claro que tem. Com os cargos eletivos acontece da mesma forma. Até porque, muitas vezes o calhorda que inventou uma lei horripilante que você não quer que seja aprovada de jeito nenhum, foi eleito deputado federal ou senador com votos de outro estado. Portanto, mesmo que você não vote ou vote nulo, você tem amplo direito a “cobrar do cara” sim!





Frase 3: “Se não fosse obrigatório, ninguém iria votar!”



Nenhuma ideia é aceita nem rejeitada por todos. O voto obrigatório, por mais que, pela lógica, pareça um contrassenso democrático, é sim defendido por algumas pessoas – até bem mais jovens que eu, para minha surpresa.



Pois bem, imagine que você quer construir uma casa. Você, pela lógica (mais uma vez ela, essa linda), vai querer contratar um pedreiro, ou seja, um cara que se interessa por essa coisa de construção. Por outro lado, você também é livre para colocar em sua obra uma pessoa que não gosta de construção e não tem a menor intimidade com os tijolos. Sua casa pode até ficar pronta, mas não vai ser a mesma coisa.



Com o voto obrigatório acontece isso: o cara que não está interessado em política é alijado de seu direito de não querer se interessar por qualquer que seja o assunto, e acaba sendo obrigado a fazer uma escolha. E sua escolha forçada é colocada em pé de igualdade com a das pessoas que realmente se interessam por política.



A mídia tenta passar a imagem da abstenção como um bicho-papão, mas quando vejo noticiarem que no país tal houve abstenção de mais de 40% da população, acho tudo muito lindo – nada mais libertário do que ver as pessoas se emprenhando em algo apenas quando querem se empenhar. A luta contra a abstenção deveria ser uma bandeira do candidato ao cargo, e não uma imposição jurídica que acaba por ferir à liberdade individual.



Logo, argumentos que defendam o voto obrigatório podem ser válidos por algum ponto de vista – menos o democrático.



Frase 4: “Todos roubam. Pelo menos eu sei que fulano faz algo”.



Mais uma vez, vou retornar ao primeiro item. E, depois de muitas palavras rebuscadas, vou me expressar da forma mais direta possível: TODOS ROUBAM É O CARALHO! Ou você vota em quem você tem total confiança, ou faça o favor de anular seu voto! A experiência de 2013 mostra que sair às ruas e pressionar os “caras” a fazerem algo que realmente faça a diferença é muito mais útil que votar em algum candidato que parece o novo messias na campanha eleitoral, enquanto você, de seu sofá, sabe que ele “rouba mas faz”.



O problema, na verdade, está na ordem da frase “rouba, mas faz”. A frase correta deveria ser “faz, mas rouba”. E se “rouba”, não é bom. Logo, compensa mais participar de movimentos que pretendem pressionar os políticos eleitos do que ajudar a eleger quem você sabe que não merece tanto assim.



Frase 5: “O problema do Brasil é a compra de votos. O cara vai na comunidade pobre e compra voto com uma dentadura, uns litros de gasolina ou um pacote de farinha!”



Ok, acabou sendo mais de uma frase. Mas é o seguinte: já vi gente de iPhone no bolso vender o voto... só digo isso.



Frase 6: “Voto em quem vai ganhar para não perder meu voto”



Ninguém gosta de perder a identidade, a chave do carro ou 100 reais. Ainda há pessoas que aplicam esse mesmo sentimento ao voto. Na falta de algum candidato que tenha conquistado sua simpatia, prefere votar naquele que as pesquisas de intenção aponta como vencedor.



Mais uma vez vemos essa pequena verminose chamada “voto obrigatório” como causadora do resto da doença. Minha opinião é a mesma: se for para você curvar sua vontade diante de uma pesquisa eleitoral, mais vale que você anule seu voto.



Pois não existe essa história de “perder voto”! O voto não é como um vale-pizza que você tem que usar até dia 31 de janeiro, e que depois você encontra na gaveta no dia 2 de fevereiro e grita um “putz, perdi!”. Não. Voto é uma escolha importante. E na falta de tê-la feito a tempo, tanto melhor que se omita de fazê-la. Uma das formas é não votando, coisa que no Brasil gerará uma odiosa multa. Outra forma, é deixando de validar seu voto. Pois como eu disse no ítem 2, você – como qualquer cidadão – sempre terá direito de cobrar satisfações do candidato, ainda que tenha dado seu título de eleitor para os cachorros comerem.



Frase 7: “Deveriam exigir diploma de ensino superior para quem quer se candidatar”



Ao contrário de frases tradicionais, como a primeira e a segunda, a presente frase é um fenômeno bem novo, que vez ou outra ainda presencio em redes sociais.



Acontece que a exigência de uma escolaridade mínima fere a própria ideia de democracia. Teoricamente, o sistema democrático permite que qualquer pessoa acima dos 18 anos pode se candidatar a um cargo eletivo – na prática não é bem assim, é claro, afinal a pessoa que quer se candidatar precisa se submeter às convenções do partido. Mas se um pipoqueiro que fez só até o sexto ano do ensino fundamental quiser se candidatar a algum cargo, ele o fará – pelo menos num mundo perfeito – para querer representar aqueles que vivem em situação semelhante. Deixar os cargos políticos só para quem tem diploma universitário fere qualquer princípio que reze que todos têm direitos iguais.



Até sou sim a favor de não permitir que o cidadão não assuma se não souber ler. Mas aí, vai do empenho do próprio candidato. O sistema deve (ou deveria) cobrar que os candidatos procurassem aprender a ler e compreender textos, já que precisarão lidar com eles. E programas de alfabetização solidária há muitos por aí. Mas exigência de ensino superior é exagero, até porque faculdade não é termômetro de inteligência nem de caráter.



Concordo quando vejo argumentarem que é um mal que as leis sejam feitas por quem não entende delas (geralmente, quem fala isso está ligado, de alguma forma, ao Direito). Mas é para evitar que um semi-analfabeto crie leis absurdas que existem órgãos como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ou ainda a Comissão de Constituição e Justiça do senado. Exigir que os integrantes de tal comissão entendam de leis me parece justo. Mas certos projetos de lei, como os de regulamentação de alguma profissão ou pedido de melhorias para alguma região, nascem mais do conhecimento de causa do que de uma conversa acadêmica.



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