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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Umbanda e Candomblé são religiões?

O juiz da 17ª Vara de Fazenda Federal do Rio de Janeiro, Eugênio Rosa de Araújo, decretou que o Candomblé e a Umbanda não são religiões.


Conheça o motivo?

Após apelarem ao Google para remover 15 vídeos no Youtube no qual se fazia troça da Umbanda e do Candomblé, o juiz foi chamado para decidir se estes deviam de ser removidos.

O Google apelou dizendo que os vídeos cumprem os seus termos e que se trata de uma questão de liberdade criativa e de expressão, já o juiz disse que a Umbanda e o Candomblé são cultos e não são religiões.

O motivo pelo qual o juiz considera que são cultos afro-brasileiros e não religiões é por não existir uma hierarquia organizada, um (1) deus ao qual se presta devoção e não há um texto sagrado como a Bíblia e o Corão.

O que considerar?

Desta forma, o juiz desconsiderou uma parte importante da cultura afro-brasileira considerando que as duas formas de espiritualidade são menores que as restantes pois não seguem os moldes com que ele vê que devem de ser as religiões.

Considero ofensivo, acho que nenhum de nós deve partir do princípio que a religião dos outros é inferior à nossa porque a base da fé (acreditar sem prova) é transversal a todos. Dizer que a Bíblia sagrada é mais sagrada que o Corão só porque você acredita na Bíblia não no outro texto sagrado é ridículo pois o contra argumento para considerar o Corão mais sagrado que a Bíblia é igual.

O facto de não existir uma compilação de textos no Candomblé ou Umbanda não é por si sinal de exclusão do mundo das religiões. Mostra uma outra realidade, natural e viva, a da manutenção da religião através de ensinamentos que passam de geração em geração mantendo todas as tradições.

O facto de não ter um (1) deus a quem se presta devoção exclusiva? Sinceramente desconheço os ritos e conceitos destas duas religiões para dizer exatamente como é. Sei que têm entidades às quais se prestam devoção mas a forma como elas são dispostas hierarquicamente é algo que desconheço.

A repercussão social

O juiz, pressionado pela opinião pública (e só pela pressão pública) reconheceu que afinal são religiões mas manteve a decisão favorável para o Google e assim os vídeos ofensivos publicados no Youtube pela Igreja Universal ficam on-line.

Se por um lado a liberdade de expressão deve ser mantida e protegida, a ofensa gratuita não.

Se os vídeos em causa opinam sobre estas duas religiões e dizem, por exemplo, que são erradas pois não são seguem a Bíblia não é motivo de remoção. Trata-se de expressar uma opinião sobre aquilo que se acha correto. Se ofendem os praticantes com adjectivos perjurativos  então partimos para a ofensa gratuita.

A linha de separa a liberdade de expressão com a ofensa gratuita nem sempre é bem visível. Se o juiz falhou no seu discernimento sobre o que é religião pode não ter falhado sobre o que é liberdade de expressão por isso deixo aqui o desafio.

Publiquem nos comentários os tais 15 vídeos ofensivos e digam a vossa opinião. O vídeo é um exercício de liberdade de expressão ou uma ofensa.

O Cabrito Maltês é um blog de opinião. Se você não gostou do que leu fique sabendo que também não o escrevemos para o agradar mas sim dar-lhe a conhecer um ponto de vista sobre o assunto. Abstenha-se de comentários insultuosos, de incitamento à violência, de pregação religiosa ou discriminatórios. Se encontrar algo assim o seu comentário será ruminado.


domingo, 18 de maio de 2014

Ganhar mais dinheiro?

Recentemente a Suíça referendou e chumbou a ideia de ter o maior salário mínimo do mundo.

Será que fizeram bem?



Em vários países, o salário mínimo nacional serve de referência para a tributação fiscal, pagamentos à segurança social e pagamento de pensões. Assim, se você ganhar mais que o salário mínimo e o valor base aumentar você paga menos impostos.

Se você ganha apenas o ordenado mínimo nacional, então o aumento representa um acréscimo do poder de compra.

Tudo seria bom mas o aumento do salário mínimo por si não significa uma boa mudança na sua carteira. Os efeitos sentidos são curtos uma vez que o aumento de dinheiro em bolso tem como impacto o aumento da inflação.

O aumento da inflação é aquilo que faz com que você pague mais a cada ano pelo mesmo produto. O aumento da inflação está associado aos custos da matéria-prima, custos de expedição, ganância (oh sim, é verdade) e também ao custo da mão de obra.

É na mão de obra que entra a história do salário mínimo, você ganha mais consequentemente o preço dos produtos/serviços que você produz aumenta forçando o seu patrão a ter de ir buscar o dinheiro de algum lado. Resultado? Você paga mais na caixa do supermercado.

A ganância controla o mercado?

Infelizmente é o desejo de lucrar mais e mais que faz com que as coisas não corram tão bem. Se todos aumentarem os seus preços por forma a garantir as margens de lucro após o aumento do salário mínimo então o aumento não nutre o efeito esperado.

Repare na tabela abaixo. Comparamos os preços de produtos de mercearia no Brasil e em Portugal e calculamos o valor por milagem que eles representam face ao ordenado mínimo de cada um dos países. Assim temos de forma absoluta o esforço que cada produto faz sobre a carteira de cada um dos habitantes mesmo tendo moedas  e rendimentos diferentes.


ProdutoValor ‰ em PTValor ‰ no BR
1 litro de leite1,11343,826
1 kg feijão7,38147,790
1 kg de arroz1,42273,785
1 kg açucar2,45362,749
peito frango 1 kg14,329911,699
fiambre2,04124,945
Coca-Cola 2 litros3,27847,307


Existe razão pela qual o fiambre tenha um custo 2 vezes superior no Brasil do que em Portugal? Bom, a isto se chama ganância. A inflação vai continuar a subir sempre que alguém se lembrar ser mais ganancioso do que o vizinho.

Pelo que lutar?

Acho que devem lutar pelo aumento dos seus salários mas também devem lutar por algo mais essencial, um custo de vida justo e acessível para todos pois mesmo que ganhe pouco dinheiro teria acesso aos bens essenciais, ao conforto e dignidade que cada ser humano merece.

Devem lutar por leis que protejam os cidadãos na enfermidade e na infelicidade como o desemprego ou situação urgente. Mais do que ganhar mais dinheiro lute para que nunca denigram e o rebaixem para além daquilo que você é, um ser humano.





O Cabrito Maltês é um blog de opinião. Se você não gostou do que leu fique sabendo que também não o escrevemos para o agradar mas sim dar-lhe a conhecer um ponto de vista sobre o assunto. Abstenha-se de comentários insultuosos, de incitamento à violência, de pregação religiosa ou discriminatórios. Se encontrar algo assim o seu comentário será ruminado.


sábado, 17 de maio de 2014

Deve o Google esquecer o passado?

Recentemente o tribunal de justiça europeu decidiu que o Google deve esquecer dos seus relatórios de pesquisa um link que relaciona um cidadão espanhol a um artigo de um jornal.

Google esquece o passado


O cidadão espanhol, de seu nome Mario Costeja González, queixou-se que sempre que pesquisava o seu nome, surgia nos resultados da pesquisa uma notícia da penhora da sua casa por conta de uma dívida à segurança social que atualmente já não existe e que se encontra regularizado. Pediu ao Google a remoção do link mas a empresa não aceitou.



O Tribunal decidiu a favor do queixoso e obrigou o Google a eliminar o registo. Segundo o Tribunal, a decisão aplica-se a informações “inadequadas, não pertinentes ou excessivas em relação ao objetivo pelo qual foram processadas, tendo em conta o tempo decorrido”.



O Sr. Mario Gonzáles ganhou, perdeu o Google e você também.



Quais as implicações da decisão?


Todos que foram alvo de uma notícia num jornal com versão electrónica, caso não gostem do que é escrito, podem pedir que o artigo deixe de ser apresentado nos resultados da busca. Assim, por exemplo, você deixaria de encontrar Cicarelli fazendo sexo na praia ou os boatos de Xuxa num filme com teor sexual envolvendo um menor.

Parece que os visados têm direito ao esquecimento e é compreensível o seu ponto de vista mas...

Após a decisão o Google foi inundada com "pedidos de esquecimento" nos quais se destacam um político com um passado duvidoso que agora está na corrida eleitoral, um médico que não quer os pacientes encontrem os comentários negativos sobre o seu desempenho e um pedófilo.

Se não sentiu um arrepio vou explicar melhor. A Internet que o Tribunal ingenuamente concebeu na sua mente será bonita e cor-de-rosa. Políticos podem passar uma borracha no seu passado, criminosos podem viver na sombra da sua ignorância e você nunca terá acesso ao passado para descobrir a verdade dos factos.

Privacidade e censura?

Opõem-se dois conceitos. O seu direito de controlar aquilo que é dito sobre si (só se for na cabeça do Tribunal) e a liberdade de expressão. Esconder o passado, apaga-lo da Internet devia de incomodar pois é pavoroso pensar num mundo em que você só lê aquilo que lhe permitem, que só acede apenas ao que for autorizado e que será criado um Index de links ao estilo da Inquisição ao gosto de cada um.

Erros todos nós cometemos, o passado não se altera mas a melhor forma de lidar será fingir que nunca existiu?




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Conchita Wurst, o estopim da maledicência?

Conchita Wurst, vencedora da edição do Festival da Canção da Eurovisão (FCE) de 2014 veio agitar as águas fétidas da maledicência. Sabem porquê?


Conchita Wurst, vencedora da Eurovisão

Basta olhar para a cara da Conchita para saber resposta. Taxada de "mulher-barbuda", a personagem de Tom Neuwirth veio confundir as imagens estagnadas que muita gente tem na cabeça sobre estereótipos.


De tal modo que não gostaram dela que os russos pediram uma outra edição do FCE pois acham que ela não representa a sua visão. Vários políticos russos aproveitaram para libertar a sua hostilidade contra os homossexuais, dizendo coisas como "nossa indignação é ilimitada, isto é o fim de uma Europa que ficou completamente louca" ou que o exército russo nunca deveria ter deixado a Áustria.



Pelas redes sociais, sítio onde cada qual dá o seu comentário sobre tudo e sobre todos (o cabrito maltês também), não se notou uma compreensão melhor do assunto.


Afinal, Conchita é o quê?


Não gosto muito dos rótulos (a vida é mais do que um adjectivo) mas acho que podemos descrever Conchita Wurst como a personagem de Tom Neuwirth. Assim, como não existe a anulação da identidade do seu criador nem a identificação com o sexo oposto, Tom é transformista.

O porquê do ódio?

Há vários motivos que levam a um comportamento hostil perante algo ou alguém. O mais comum é quando nos sentimos ameaçados na nossa integridade mas olhando para a Conchita, não acreditamos que ela vá desferir golpe de Karaté contra alguém.

Então, o ódio pode ser por:

1) Representação ou projecção daquilo que gostaríamos de fazer, ser ou ter. Aqui se incluem pessoas mal resolvidas com a sua sexualidade, identificação de género ou socialmente reprimidas no passado que levam a perpetuar o comportamento. Inveja se transforma em ódio

2) Incapacidade de compreender. A frustração por não entender o que vemos não é assumida como de nossa responsabilidade e hostilizamos o sujeito como forma do eliminar. Como não podemos matar ou agredir fisicamente, o comportamento é transformado em discursos de ódio. Ignorância se transforma em ódio.

3) Integração social. Pode parecer estranho o conceito mas os nossos comportamentos são condicionados pelo meio onde vivemos. Se uma sociedade, em geral, maltrata um determinado grupo, então, de forma a se sentir incluído na sociedade, o indivíduo imita o comportamento. O exemplo mais comum é encontrado em seguidores de religiões fundamentalistas ou filhos que imitam a ideologia dos seus pais. Anulação da individualidade se transforma em ódio.

4) Alucinação. Um grupo (ou indivíduo) acredita numa ameaça que não existe e reage de forma violenta. A realidade deste indivíduo é pautada normalmente por teorias de conspiração, perseguição, temor e ignorância. Os seus discursos para justificar o comportamento são, usando um eufemismo, pobres na sua construção e raramente têm algum fundamento. Delírio se transforma em ódio.


Honestamente, não há razão alguma para odiar Conchita e ela foi uma merecida vencedora. Uma competição leal deu-lhe a vitória. Se você não gosta da Conchita, até aí tudo bem. Não podemos gostar de todos nem todos de nós mas faça um favor. Não nutra ódio por ninguém.





O Cabrito Maltês é um blog de opinião. Se você não gostou do que leu fique sabendo que também não o escrevemos para o agradar mas sim dar-lhe a conhecer um ponto de vista sobre o assunto. Abstenha-se de comentários insultuosos, de incitamento à violência, de pregação religiosa ou discriminatórios. Se encontrar algo assim o seu comentário será ruminado.